Estreia mundial do Audi Quattro > Algarve 1980

O final da edição semanal da revista Autosport, levou à escolha dos momentos mais marcantes da publicação de desporto motorizado nacional. Inevitavelmente, a estreia do Audi Quattro no Rali do Algarve de 1980 mereceu destaque.

Antes do mais o melhor é recordar a crónica da prova de 1980
RALLY URBIBEL ALGARVE, por José Correia, publicada no fórum Ralis a Sul:

Em 1980 o Rali do Algarve foi disputado em 3 etapas, como era hábito, tendo uma extensão total de 1427 kms de percurso, com 30 Provas Especiais de Classificação, que totalizavam cerca de 487 kms. A prova teve a designação de Rallye Urbibel Algarve, pois a empresa imobiliária Urbibel era o principal patrocinador da prova.

Estavam inscritas 98 equipas, partiram 73 e acabaram 36.
À partida para a prova algarvia, o título europeu de ralis estava em disputa entre o espanhol António Zanini e o francês Bernard Beguin, dois pilotos que tripularam durante toda a época dois Porsche 911 SC, o do Espanhol preparado pelos irmãos Almeras e o do Francês por Meznarie. E ainda antes da partida dá-se o primeiro golpe de teatro, que se veio a revelar decisivo na atribuição do título.

É que António Zanini abdica da participação com o Porsche 911 e passa para o volante do Ford Escort RS 1800 do Team Diabolique, carro habitualmente tripulado pelo José Gonçalves. Por considerar que o Porsche seria um carro demasiado frágil para a dureza dos pisos de terra algarvios, Zanini preferiu não arriscar e jogar pelo seguro, através da fiabilidade e resistência comprovada dos Escorts da Diabolique. Como os regulamentos ( julgo que ainda hoje é assim ) só permitiam a mudança de um dos elementos da equipa, foi o Dr.Miguel de Oliveira ( dono da Diabolique ) que se sentou no lado direito, ficando o habitual navegador de Zanini, Jordi Sabater a seguir a prova como espectador.

No Nacional, o título estava ao alcance de 3 pilotos, Mário Silva ( sim, esse que ainda hoje corre na velocidade e nos clássicos ), que tripulava um Escort RS 1800 de Grupo 4, Carlos Torres ( piloto já falecido e que foi outro dos nomes grandes dos Ralis nacionais das décadas de 70 e 80 ), em carro idêntico e Santinho Mendes, sempre fiel aos Datsun, nesta altura tripulava um 160 J de Grupo 2. Santinho era o piloto em piores condições para conquistar o título, dada a desvantagem pontual que tinha para os outros dois pilotos.

Como se fosse a cereja em cima do bolo, este Rali teve ainda como mestre de cerimónias Hannu Mikkola e o seu navegador Arne Hertz, ao volante do Audi Quattro, que por não estar ainda homologado, participou na prova como carro 0, partindo 15 minutos antes dos concorrentes.

E vamos então começar pelo carro 0. Na época causou sensação o aparato de assistência e um certo “ secretismo “ que a Audi Sport fez questão que acontecesse. O director desportivo era Walter Treser, ainda hoje um conceituado preparador de Audis, e a marca de pneus que equipava o Audi Quattro era a Kléber.

A superioridade do Audi foi tal que, após as 30 PEC, tinha uma vantagem de mais de 29 minutos sobre o vencedor da prova!
Das 30 classificativas, o Audi foi o carro mais rápido em 25 delas e não registou problemas de maior, dado que cumpriu sempre o percurso e o horário do Rali, o que equivale a dizer que, caso estivesse em prova, tinha sido o claro vencedor.

Mas vamos passar à parte competitiva do Rali, não sem antes dizer aos nossos amigos madeirenses que também visitam este Fórum que as duplas Madeirenses Emanuel Pereira / António Castro ( Escort RS de Grupo 1 ), António Rodrigues / Capelo ( Datsun 1600 SSS ) e o Vice Rei do Machico Abel Spínola / M. Câmara ( Honda Civic ) foram 3 dos 23 que estavam inscritos e não compareceram às verificações técnicas.

Na primeira etapa, que entre as 5 classificativas percorridas duas vezes cada, tinha como principal palco duas passagens pelo mítico Santa Catarina, serviu para Beguin mostrar que afinal o Porsche não só era resistente como rápido nos pisos de terra, e convém recordar que esta era a primeira época do piloto francês em ralis de terra, tendo apenas disputado dois até ao Algarve… Beguin dominou claramente Zanini, vencendo 9 dos 10 troços e chegando ao final da 1ª etapa com uma vantagem de 2 minutos e 27 segundos sobre o espanhol.

No que diz respeito aos portugueses, Mário Silva era 3º a 7.53, Santinho Mendes era 4º a 10.54 e em 5º aparecia o melhor algarvio, José Inverno Amaral, que com o Escort RS 2000 do Team Fundador estavam já a 15.31.
Entre as incidências desta 1ª etapa, destaque para a desistência do piloto do Mónaco ” Ray “, que capotou o seu Escort RS 1800, o atraso de Carlos Torres, que com problemas eléctricos perdeu cerca de 25 minutos, que o arredavam da luta pelo título nacional e a constante perda de tempo devida ao pó que Inverno sofreu, por partir atrás do Vauxhall Chevette de Rui Lages ( sim, também é esse mesmo que estão a pensar, que agora é autarca em Braga ).

Entre os algarvios, a desistência da dupla Carlos Fontaínhas / Rogério Seromenho devido a um semi eixo partido e os inúmeros problemas de caixa de velocidades do Pedro Cabeçadas, que nesta prova era acompanhado pelo António Pereira.

Na segunda etapa, mais 10 troços, 5 repetidos duas vezes, que foram integralmente dominados pelo Bernard Beguin, que os venceu TODOS! Parecia pois que o francês se encaminhava para uma vitória na prova. Esta segunda etapa incluía o famoso Salir, com 22.6 kms.

Entre os nacionais, a reviravolta aconteceu, pois Mário Silva capotou o seu Escort, perdendo mais de 4 minutos e passando para trás de Santinho, já que o carro ficou algo maltratado no acidente.

Inverno Amaral continuava a manter a sua 5ª posição, mas ganhava um avanço mais substancial para o seu mais directo adversário, Francisco Romaozinho, que tripulava o Citroen Visa que viria a ser anos mais tarde e mais evoluído, o carro do Inverno Amaral… Começava também a subir na classificação outra dupla algarvio, o Dr. Orlando Reis, navegado pelo José Manuel Conde ( na actualidade relações com os concorrentes do CRRS ). Esta equipa, com um Ford Escort RS 2000 de grupo 1, daqueles com a frente inclinada de quatro faróis e tudo, chegaram a comandar o Grupo 1 durante esta etapa.

Mas chegamos à 3ª etapa ainda com tudo em aberto, tanto no Europeu como no Nacional. E esta etapa tinha mais 10 troços, incluindo duas passagens pelo troço de Monchique, com 50,1 kms de extensão, que normalmente deixava marcas na caravana., ainda por cima porque o troço seguinte era Aljezur, com mais 26 kms…

A 1ª passagem por Monchique seria marcada pela vitória no troço de Santinho, notável para quem tripulava um carro de Grupo 2, claramente menos potente que os seus adversários, mas Beguin continuava imperturbável a ganhar segundos a Zanini.

O Dr. Orlando Reis perde a liderança do grupo 1 por ter furado duas vezes, fazendo mais de 12 kms em cima da jante.
Em Aljezur acabava a boa prova de Inverno Amaral, que capotou o Escort e foi obrigado a desistir, pois o FS-51-40 ficou completamente destruído, tendo mesmo sido interrompido o troço para averiguar o estado do piloto e do navegador Joaquim Neto.

As segundas passagens por Monchique e Aljezur não trazem nada de novo, mas é no 28º que tudo fica decidido em relação ao Europeu. Béguin desiste com a correia do alternador partida e daí até ao final a prova foi um passeio para Zanini, que assim recebeu de bandeja a vitória no Rali e no Campeonato Europeu.

Quanto ao Nacional, o ataque de Santinho Mendes também veio a dar frutos, garantindo o Título Nacional de 1980.
Com a desistência de Inverno, o Orlando Reis passou a ser o melhor piloto algarvio e segundo classificado no grupo 1.

A classificação final do Rali ficou assim ordenada:
1º António Zanini / Miguel de Oliveira – Ford Escort RS 1800- 7h02m54s
2º Santinho Mendes / Filipe Lopes- Datsun 160 J- a 7m35s
3º Mário Silva / Pedro de Almeida- Ford Escort RS 1800 – a 13m40s
4º Francisco Romãozinho / Luís Alegria- Citroen Visa Super X- a 20m06s
5º Holger Helle / Ole Hansen – Opel Ascona 2000- a 32m06s
6º Werner Schweizer / Dartsch- Opel Kadett GTE- a 37m04s
7º Jorge Parente / Alfredo Lavrador- Ford Escort RS 2000- a39m49s
8º Orlando Reis / José Manuel Conde- Ford Escort RS 2000- a43m29s
9º Fernando Simões / Campos- Opel kadett GTE- a53m54s
10º Rui Lages / Abel Santos- Vauxhall Chevette 2300 HS- a1h01m58s
19º Pedro Cabeçadas / António Pereira- Ford Escort RS 2000 – a1h30m14s
25º José Moreno / Luís Calafate- Datsun 1200- a2h06m57s
33º Carlos Simões / Jorge Cirne – Citroen Dyane 6- a2h59m15s
35º Alberto Urbano / Ramirez- Datsun 1200 GX- a3h26m50s

 

CRONICAS E FOTOS DA PROVA:

 

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